Trocar o diesel por eletricidade ou biodiesel não basta. Na Amazônia, a verdadeira questão é quem ganha, quem perde e quais territórios e povos que continuarão pagando o custo da chamada transição energética.
Por João Paulo Serra*
O caminho para uma transição energética justa e popular na Amazônia é tortuoso. É desafiador. A região, ainda marcada pela pobreza energética, possui muitos locais que sequer são atendidos pelo sistema de abastecimento de energia elétrica. Contudo, tem crescido a pressão pela mudança da matriz energética, enquanto as populações mais vulnerabilizadas seguem excluídas dos debates sobre as mudanças climáticas e das transformações estruturais necessárias para o enfrentamento desse problema global.
Assim, em um contexto de tamanha diversidade socioterritorial, como garantir que esse processo seja participativo, equitativo e justo? A implementação de frotas elétricas para o transporte de cargas e passageiros pode ser vista como um caminho inevitável diante da crise climática, mas essa é uma discussão que colide com a realidade amazônica. Aqui, caminhões “pau de arara” ainda transportam pessoas, e rodovias ficam intransitáveis por meses durante o inverno amazônico. A questão central não é apenas qual tecnologia moverá os veículos do futuro. Antes, é necessário perguntar: quem será beneficiado por essa transição e quem, mais uma vez, continuará pagando a conta?
O Brasil depende do transporte rodoviário. De norte a sul, caminhões movimentam a economia nacional e garantem o abastecimento de cidades, portos e centros industriais. Mas raramente paramos para refletir sobre os custos desse modelo. Quantas toneladas de dióxido de carbono são lançadas na atmosfera todos os anos para manter essa engrenagem funcionando? Quantos territórios são impactados para que as mercadorias continuem circulando?
Dados do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) apontam que apenas os caminhões responsáveis pela logística da Zona Franca de Manaus respondem por cerca de 48% das emissões de gases poluentes do setor de transporte na região Norte do Brasil. Essa é uma das primeiras injustiças da lenta transição energética.
É importante ficar alerta, pois dizer que um caminhão a diesel emite muitos gases poluentes não significa que mudar o combustível ou o modelo resolva o problema estrutural. Os caminhões elétricos requerem uma infraestrutura de recarga e manutenção que nem mesmo as regiões brasileiras mais desenvolvidas tecnologicamente possuem de forma adequada. Diante desse cenário, por quanto tempo ainda vamos esperar para discutir soluções adaptadas à realidade amazônica?
Se os caminhões elétricos se tornarem realidade na Amazônia, de onde virá a energia? Mais importante: essa energia é realmente limpa e, acima de tudo, justa?
O caminhão só anda se houver estrada, e abrir estradas na Amazônia é um assunto complexo que nunca se limitou à mobilidade. Estradas significam desmatamento, grilagem de terras, avanço da especulação fundiária e pressão direta sobre territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Significam também o fortalecimento de um modelo econômico que, historicamente, enxergou a floresta como um obstáculo ao progresso e não como condição fundamental para a manutenção da vida.
Desde o regime militar, a região foi tratada como uma fronteira a ser ocupada, onde rodovias eram apresentadas como estratégias de integração nacional. Contudo, essa integração nunca chegou às populações que vivem aqui; o que chegou foi a expansão da pecuária, da exploração madeireira, dos grandes projetos de mineração e a destruição sistemática do bioma. Mais de trinta anos após o fim da ditadura, as heranças desse modelo permanecem vivas.
Nenhuma grande estrada na Amazônia foi pensada prioritariamente para melhorar a vida das populações locais. Ontem, como hoje, o discurso permanece o mesmo: facilitar a logística para o agronegócio e para grandes empreendimentos, aumentar a produção e acelerar um crescimento econômico que ignora a justiça social.
Se os caminhões elétricos se tornarem realidade na Amazônia, de onde virá a energia? Mais importante: essa energia é realmente limpa e, acima de tudo, justa? A expansão das redes elétricas necessárias para sustentar essa frota não será neutra. Implica na ampliação de áreas impactadas pela instalação de linhas de transmissão e subestações. Embora a Amazônia seja uma das regiões que mais produzem energia elétrica para o Brasil, os danos socioambientais resultantes desses megaempreendimentos recaem quase exclusivamente sobre aqueles que nasceram, cresceram e vivem aqui, ainda que beneficie toda a nação.
A mesma lógica de exclusão aparece em relação à geração de energia. Hidrelétricas continuam sendo vendidas como símbolos de energia renovável, mas qual é a régua utilizada para definir essa sustentabilidade? É sustentável remover comunidades inteiras de seus territórios ancestrais? É aceitável alterar o ciclo natural dos rios, comprometendo a reprodução dos peixes e a segurança alimentar de milhares de famílias ribeirinhas? Não há sustentabilidade em obrigar pessoas a reconstruírem suas vidas em contextos urbanos precários, perdendo suas referências culturais, econômicas e afetivas em nome de uma “descarbonização” que não as inclui.
Afinal, a transição energética pode ser considerada justa quando beneficia apenas alguns e sacrifica muitos outros?
Para quem observa apenas planilhas de geração e metas de emissão zero, a resposta pode ser positiva. No entanto, para as populações que vivem nos territórios impactados, que pagam uma das tarifas de energia mais caras do país e testemunham a destruição sistemática de seus modos de vida, o modelo atual é o oposto do que se entende por justiça energética. Uma transição que não priorize a descentralização, a acessibilidade e o bem-viver das pessoas e da natureza é apenas uma atualização das velhas formas de injustiça sob uma nova roupagem verde.
Por isso, é difícil confiar quando governos anunciam novas promessas de desenvolvimento verde sem participação popular. Nossas experiências na Amazônia mostram que grandes obras e projetos são raramente construídos para atender às necessidades das populações locais. Quando uma rodovia é pavimentada, sabemos que ela atende, prioritariamente, aos interesses do agronegócio, dos grandes empreendimentos e da circulação de mercadorias. As pessoas acabam utilizando essa infraestrutura porque ela existe, não porque foi planejada para elas.
O caminho para uma transição energética justa, inclusiva e popular na Amazônia é trafegável, mas não pelas mesmas estradas que historicamente trouxeram desmatamento, violação de direitos e concentração de riqueza, contribuindo para o agravamento da crise climática global. A verdadeira mudança exige a abertura de outras estradas, pautadas pela participação popular efetiva, pelo respeito inegociável aos territórios e por investimentos que sejam, de fato, adaptados às complexas realidades amazônicas.
Por parte do governo, o caminho da transição energética está longe de ser percorrido com a seriedade necessária. Isso é, acima de tudo, contraditório, pois nem mesmo a realização da COP 30 no coração da Amazônia impediu o governo de avançar com planos de exploração de petróleo na foz do Amazonas. Mais do que uma busca por geração de renda ou desenvolvimento para uma região extrema do país, existe a nítida contradição de se tentar projetar globalmente uma imagem de sustentabilidade que permanece manchada pelo interesse contínuo em explorar combustíveis fósseis. Assim, mantém-se uma lógica de dependência dos combustíveis fósseis em detrimento de territórios que já se encontram profundamente vulnerabilizados pelas mudanças climáticas e as desigualdades socioeconômicas do país.
Nesse cenário, apenas substituir o tipo de combustível ou o modelo de transporte é insuficiente. Os caminhões que hoje cruzam a região carregam mais do que mercadorias; eles transportam um modelo econômico fadado ao colapso se não houver uma transição que coloque a justiça social e a ambição climática no centro das decisões.
Entretanto, existe uma questão frequentemente ignorada nesse debate. A Amazônia não é apenas uma região de estradas. É, sobretudo, uma região de rios. Boa parte da circulação de pessoas, alimentos, combustíveis e mercadorias ocorre pelas vias fluviais. Por isso, discutir transição energética na Amazônia sem considerar os transportes aquaviários significa ignorar uma das principais características da região. Suas emissões não são significativas o suficiente para integrar esse debate? É possível fazer uma transição pela metade?
A transição energética não pode se restringir apenas a um grupo, a um lado ou a um setor. Afinal, estamos falando de uma transição que deve, obrigatoriamente, colocar as pessoas e suas realidades territoriais no centro dos debates e das soluções, garantindo que os direitos ao território, a cultura, ao meio ambiente e à saúde prevaleçam sobre a mera eficiência logística.
A transição energética só será verdadeiramente transformadora quando deixar de tratar a Amazônia como fornecedora de recursos para o restante do país e passar a reconhecer seus povos como protagonistas das decisões sobre o próprio futuro.
*João Paulo Serra é comunicador popular, ativista socioambiental e climático, e atua no Tapajós de Fato - veículo de comunicação popular e independente da Amazônia. Escreve sobre clima, direitos socioambientais, os impactos do agronegócio na Amazônia e cultura. Participou do programa Comboio, onde aprofundou conhecimentos na área de transição energética justa.