*Por Pedro Ribeiro Nogueira
Debates promovidos no encontro "Quem move o Brasil?", realizado pelo Aurora Lab, apontam que a descarbonização do transporte passa pela reorganização do desenho urbano, transição justa no frete e escuta ativa da "maioria silenciosa" do país.
O setor de transportes responde hoje por 40% das emissões de energia no Brasill. Diante da urgência climática, a substituição de motores a combustão por veículos elétricos é frequentemente apresentada como a bala de prata para o problema. No entanto, especialistas reunidos no encontro "Quem move o Brasil? Debates sobre trabalho, energia e desenvolvimento”, que marcou os dois anos de aniversário do Aurora Lab, em maio em São Paulo, alertam que focar a transição energética apenas na troca tecnológica é um erro que ignora as profundas desigualdades estruturais e urbanas do país.
O evento começou com o painel "Além da estrada: caminhos para descarbonizar o transporte no Brasil" que jogou luz sobre as complexidades de um setor que é, ao mesmo tempo, o maior gargalo climático das cidades e a espinha dorsal da economia nacional.
Salvação elétrica ou mito?
Para Ana Nassar, diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), a eletrificação é bem-vinda, mas representa apenas uma fração da resposta."Se apenas trocarmos a frota atual por veículos elétricos, criaremos um 'ecocongestionamento'. Isso reduz os gases de efeito estufa e os poluentes locais, mas não resolve o tempo de deslocamento das pessoas, o custo do transporte ou o acesso a serviços essenciais como postos de saúde", pontuou Ana.
Nassar também enfatizou a necessidade de recuar a perspectiva universalista, que desenha o transporte pensando no deslocamento padrão de um homem branco (casa-trabalho), e adotar uma ótica de gênero, raça e classe. Como contra exemplo positivo, citou a experiência do La Rolita, em Bogotá: uma empresa estatal de transporte coletivo 100% elétrico cuja força de trabalho é majoritariamente composta por mulheres, aliando inclusão produtiva e sustentabilidade.
Dilemas da matriz energética
André Cieplinski, pesquisador do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT), aponta que um veículo de passeio elétrico emite 75% menos carbono ao longo de sua vida útil do que um flex médio (que usa álcool e gasolina). Além disso, o possível fim das emissões de escapamento gera um impacto imediato na saúde pública ao cortar materiais particulados e óxido nitroso.
Outro alternativa bastante propalada, o hidrogênio verde, enfrenta barreiras severas de viabilidade comercial para o frete pesado. "O veículo é mais caro e consome muito mais energia na produção. A vantagem é a autonomia, mas o custo chega a ser de quatro a seis vezes maior que o de outras alternativas", explicou.
Cieplinski também trouxe ponderações críticas sobre o papel dos biocombustíveis no Brasil, trazendo que o etanol de cana-de-açúcar possuí um bom balanço ambiental, 30g de C02 por megajoule contra 85g da gasolina, mas pontuou que o de milho e o biodiesel de soja acendem o alerta de desmatamento na Amazônia Legal pela dificuldade de rastreamento da biomassa originária.
Caravana do Futuro nas estradas do presente
Uma experiência testou na prática como é o atual estado da eletrificação do transporte pesado de cargas nas estradas brasileiras. Gabriela Vuolo, diretora do Aurora Lab, compartilhou os bastidores da Caravana do Futuro, um projeto em que a organização cruzou o Brasil a bordo de um caminhão 100% elétrico de 20 toneladas e 18 metros de comprimento.
Se por um lado o caminhão funcionou como uma poderosa ferramenta de engajamento prático sobre a viabilidade do transporte pesado limpo, por outro expôs o abismo de infraestrutura do país. "Disseram que estávamos malucos. Não conseguimos sequer fazer o seguro do veículo. Ao longo da trajetória, enfrentamos postos onde a rede não dava suporte para a recarga, evidenciando que a infraestrutura atual foi pensada apenas para veículos individuais e sofre com uma brutal desigualdade regional entre o Sul/Sudeste e o Norte/Nordeste", relatou Gabriela.
Estradas e memória
O segundo bloco do debate expandiu o olhar para o tecido social que sustenta esse ecossistema rodoviarista. O sociólogo José Henrique Bortolucci, autor do livro O que é meu, resgatou a história de seu pai, caminhoneiro de longa distância desde 1965, para lembrar que o desenvolvimento territorial do Brasil foi construído no lombo dos caminhões — uma classe trabalhadora cujas narrativas cotidianas são frequentemente soterradas por debates excessivamente técnicos.
"Ao discutir transição energética, corremos o risco de cair em um vocabulário tecnicista que se afasta da gramática do dia a dia das pessoas", alertou Bortolucci. Ele apontou como a precarização do trabalho (visível na escala exaustiva de 6x1 e na plataformização por aplicativos) redesenhou o destino político e os sonhos dessa categoria.
Complementando essa leitura sociológica, Gabriela Feitosa, arquiteta e urbanista da organização More in Common, apresentou dados de uma pesquisa quantitativa que mapeia o "Brasil Invisível". O estudo aponta que 54% da população brasileira se encontra no grupo dos desengajados e cautelosos — cidadãos que não pertencem aos políticos militantes das redes sociais e estão profundamente exaustos da polarização política, mas que não são apolíticos.
Segundo a pesquisa trazida por feitosa, as pessoas na ponta já sentem os impactos materiais da crise climática no seu dia a dia e 67% dos entrevistados acreditam que o Estado deve responsabilizar e apoiar os trabalhadores diante dessa crise.
Desafios do futuro
Luz Gonzales, cofundadora do Aurora Lab, encerrou os debates provocando uma reflexão sobre o papel da escuta ativa. Compreender a "maioria silenciosa" — suas dores com o custo de vida, a exaustão física e a busca por dignidade — é o único caminho para desenhar uma transição energética que faça sentido fora dos gabinetes. A descarbonização do transporte não é apenas uma escolha de matriz elétrica ou de biocombustível; é a reconstrução do pacto social e democrático do Brasil sobre rodas.
De um jeito ou de outro, não existem saídas fáceis para um problema que é incontornável: como vamos reduzir os combustíveis fósseis e diminuir as emissões para frear a crise climático? Em qualquer modelo societário que tivermos, essa vai ser uma manobra necessária. No Brasil, a preocupação é clara: precisamos usar a transição como um momento de transformação social, respeitando os territórios e mudando quem paga a conta de uma matriz energético poluente e insustentável.
*Pedro Ribeiro Nogueira é jornalista e membro da Escola de Ativismo