O setor de transportes de cargas na transição energética

Já parou para pensar que, mesmo usando no dia a dia uma energia que vem majoritariamente de fontes renováveis, como quando ligamos a airfryer ou carregamos o celular, existe outra parte enorme do nosso consumo energético que ainda é superpoluente?

Pois é: ela está no setor de transportes, que depende quase totalmente da queima de combustíveis fósseis. A entrega que chega rapidinho na sua casa, o abastecimento do atacadão da sua cidade e o funcionamento de vários serviços essenciais do país só acontecem porque as cargas viajam milhares de quilômetros em caminhões movidos a diesel. Ou seja, mesmo vivendo num país com uma matriz elétrica “limpa”, ainda temos um longo caminho pela frente quando o assunto é energia limpa nas estradas.

Mais de 60% de nossas cargas são transportadas por meio de caminhões em rodovias!

Nas rodovias brasileiras circulam vários tipos de caminhões, e eles são classificados principalmente pelo peso que conseguem transportar. De forma simples, dentro das cidades e em trajetos mais curtos costumamos ver caminhões leves, semileves, e médios, usados para entregas urbanas e deslocamentos dentro do estado. Já os caminhões pesados e semipesados são os que encaram longas distâncias e levam diferentes tipos de carga para todos os cantos do país.

Um exemplo bem conhecido é o da soja produzida em Mato Grosso, que muitas vezes percorre cerca de 2.200 quilômetros até o Porto de Paranaguá, no Paraná, em razão do tamanho continental do Brasil. Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que um caminhão pesado pode acumular mais de 790 mil quilômetros rodados no seu 10º ano de vida e ultrapassar 1,8 milhão de quilômetros ao longo de 30 anos de operação.

Diante desse cenário, o setor contribui e muito para a crise climática! Quando falamos de todo o setor de transporte (carros, ônibus, caminhões), suas emissões representam 47% dos gases de efeito estufa do Brasil. Nesse contexto, os caminhões concentram 40% de todas as emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes! No mundo, esse número varia de 11 a 18%! O impacto acontece, principalmente, por conta da queima de combustíveis fósseis (sim, eles de novo), como o diesel e a gasolina nos motores a combustão.

Diferentes modos de transportar nossas cargas:

Rodoviário

~62%

Ferroviário

~19%

Aquaviário

~14,6%

Dutoviário

~3,6%

Aéreo

~0,1%

Fonte: Agência de Notícias da Indústria, 2024.

Como chegamos
até aqui?

Isso não é de hoje. Embora o Brasil já tenha sido exemplo de transporte ferroviário (o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a ter a maior malha ferroviária do mundo), hoje são as rodovias que atravessam nosso país.

Visão geral dos
caminhões no Brasil

Temos 2 milhões de caminhões,
o que representa apenas 5% dos veículos em circulação no Brasil

Fonte: Instituto Ar

76% do diesel
do país é
consumido por caminhões

Fonte: Instituto Ar

Caminhões
concentram
40% de todas
as emissões de
gases de efeito
estufa do setor
de transportes

Fonte: Instituto Ar

65% de toda a
carga do Brasil
vai por rodovias

Fonte: Instituto Ar

Frota envelhecida: 6,1% têm mais de
30 anos

Fonte: Instituto Ar

Caminhões representam 85% da poluição do ar causada por emissões vindas do transporte

Fonte: Instituto Ar

Os impactos do setor de
cargas pesadas

Os caminhões desempenham um papel fundamental na economia do Brasil, já que o país é um importante centro de produção, um dos principais mercados emergentes para vendas e os caminhões são o principal meio de transporte para cargas e fretes nacionais.

Mas é importante lembrar que os caminhões médios, semipesados e pesados estão entre os veículos que mais emitem gases de efeito estufa e outros poluentes. Além disso, são justamente esses os segmentos mais atrasados quando o assunto é transição energética no setor de transportes.

Os impactos dos transportes de cargas na saúde

Ao emitirmos mais gases de efeito estufa, pioramos a saúde de todas as pessoas - lembrando que as minorias sociais são sempre as mais afetadas - pois contaminamos o ar que respiramos. As emissões dos transportes de carga estão diretamente ligados a doenças respiratórias e cardiovasculares, que acabam sobrecarregando os sistemas públicos de saúde, já que poderiam ser evitados.

Uma prova da poluição gerada pelos caminhões foi vista em São Paulo durante a greve dos caminhões em 2018, quando o transporte rodoviário foi paralisado por dez dias. Naquele período, a poluição na cidade caiu 30%. Um relatório do Instituto Ar calcula que, se essa melhora fosse permanente, o país poderia evitar mais de 4.000 mortes anuais ligadas à poluição do transporte de cargas.

Esses são os principais poluentes
emitidos pelos caminhões:

CO₂ (dióxido de carbono)

Caminhões = principal fonte de CO₂ no setor

49,9% das emissões do setor de transportes

185,3 milhões de toneladas/ano

CO₂ (dióxido de carbono)

Em São Paulo: caminhões são menos do que 4% da frota, mas representam mais de 80% das emissões

Em Salvador: caminhões são menos do que 7% da frota, mas representam 84% das emissões

PM₂.₅ (poeira fina que vem de
veículos, obras, queimadas)

Grande fonte urbana do poluente mais associado a mortes prematuras

Fuligem (black carbon)

Concentra-se em corredores
de carga e áreas portuárias

Associado a doenças cardiorrespiratórias
e aquecimento climático

Fonte: Instituto Ar

Os impactos dos transportes de cargas nos direitos socioambientais

O impacto da poluição do ar causada por caminhões pesados ​​no Brasil afeta desproporcionalmente comunidades localizadas próximas a importantes corredores de transporte, incluindo rodovias, centros logísticos e cidades portuárias.

Essas áreas, frequentemente onde residem populações de baixa renda, sofrem não apenas com maior exposição a poluentes nocivos, mas também com vulnerabilidades socioeconômicas que agravam os riscos à saúde.

Leia mais sobre o impacto dos caminhões para comunidades e povos tradicionais:

Quem toma as decisões e define a realidade dos caminhões

O mercado de caminhões é controlado por um pequeno grupo de grandes montadoras globais. Cinco fabricantes (OEMs) concentram boa parte da produção mundial: Daimler Truck, Volvo Group, TRATON (que controla Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania e MAN), PACCAR e China National Heavy Duty Truck Group (Sinotruk).

No Brasil, a Volkswagen Caminhões e Ônibus lidera as vendas há anos, seguida por Mercedes-Benz e Volvo. Essa concentração confere a essas empresas um papel decisivo nos rumos da inovação tecnológica e da transição para caminhões de baixa emissão. Esse mercado é estruturado por três grandes frentes de poder e influência, que desempenham papéis decisivos na definição das tecnologias, dos investimentos e dos rumos da transição energética no transporte de cargas.

Montadoras e fabricantes

O mercado de caminhões é marcado por uma forte concentração de poder econômico e político. Um número reduzido de atores controla as principais decisões sobre quais tecnologias serão desenvolvidas, financiadas e adotadas na transição energética do transporte de cargas

Companhias de logística e transporte possuem elevado poder de compra e influenciam diretamente o mercado. Suas decisões sobre aquisição e renovação de veículos ajudam a definir tendências, acelerar a adoção de novas tecnologias e direcionar investimentos da indústria.

O poder público atua por meio da regulamentação do setor, da fiscalização do transporte de cargas e da criação de políticas de incentivo. Instrumentos como linhas de crédito, programas de financiamento e normas ambientais podem acelerar ou frear a renovação da frota e a adoção de tecnologias de menor impacto ambiental.A interação entre esses três atores molda o futuro do transporte de cargas. Por isso, a transição energética não depende apenas da disponibilidade de novas tecnologias, mas também das disputas de poder, dos interesses econômicos e das políticas públicas que determinam quem se beneficia e quem pode ficar para trás nesse processo.

Como chegamos
até aqui?

Isso não é de hoje. Embora o Brasil já tenha sido exemplo de transporte ferroviário (o Rio de Janeiro foi o primeiro país a ter a maior malha ferroviária do mundo), hoje são as rodovias que atravessam nosso país. 

Ao longo da industrialização brasileira, nos anos 1950, empresários e governos fizeram lobbies e incentivos para a consolidação do setor automobilístico nacional. É por isso que atualmente temos 1,7 milhão de quilômetros de estradas, que transportam mais de 60% de nossas cargas, sendo essa a maior malha rodoviária do mundo. Esse índice é maior do que países como a Austrália (53%), na China (50%), no Canadá (43%), nos Estados Unidos (32%) e na Rússia (8%). 

Isso criou uma grande dependência de rodovias, o que gera altos custos econômicos, pois sua infraestrutura ainda é precária, com estradas sem muita manutenção, prejudicando quem mora ao seu entorno e, claro, os trabalhadores e trabalhadoras do setor.

Viu só como é muito provável que a blusinha do seu armário, a comida que você pegou no mercadinho ou qualquer outro tipo de encomenda chegue até você em um caminhão que percorreu longas distâncias nas rodovias brasileiras emitindo gases de efeito estufa que agravam a crise do clima?  

Ao longo do tempo isso só tem aumentado: entre 2005 e 2018, a frota de caminhões do Brasil expandiu-se a uma taxa média anual de 3,5%, o que fez aumentar o consumo do diesel, e consequentemente piorar a crise climática.