A Amazônia respira diesel: o crime invisível dos caminhões

Por Adilson Vieira*

A Amazônia não está sendo destruída apenas pelas motosserras, pelo fogo ou pelas grandes máquinas do garimpo. Ela também está sendo atravessada, todos os dias, por uma engrenagem menos visível, mas profundamente destrutiva: os caminhões a diesel. Eles circulam por rodovias, portos, zonas industriais e corredores logísticos levando mercadorias, insumos, minérios, combustíveis e produtos da Zona Franca de Manaus, mas deixam para trás fumaça tóxica, doenças respiratórias, emissões climáticas e pressão crescente sobre territórios indígenas, comunidades ribeirinhas e populações tradicionais.

A pesquisa apresentada pela Rede GTA sobre os caminhões a diesel na Amazônia mostra que a logística da Zona Franca de Manaus tem um peso climático e sanitário muito maior do que costuma aparecer no debate público. Segundo o estudo, os caminhões a diesel que abastecem a ZFM consomem cerca de 82 milhões de litros de diesel por ano e respondem por aproximadamente 48% das emissões de CO₂ do setor de transportes na região Norte. A pesquisa também aponta que uma eletrificação parcial da frota poderia reduzir milhares de toneladas de CO₂ por ano e economizar milhões de litros de diesel, especialmente com a instalação de estações de recarga rápida nos corredores amazônicos.

Mas o problema não é apenas climático. É também uma questão de saúde pública. O relatório Do Berço ao Túmulo, da Global Climate and Health Alliance, mostra que os combustíveis fósseis fazem mal à saúde em todas as etapas de seu ciclo de vida: extração, refino, transporte, combustão e abandono das infraestruturas. A poluição fóssil afeta o corpo humano desde o desenvolvimento fetal até a velhice, aumentando riscos de asma, doenças cardíacas, câncer, demência, morte prematura e danos ao sistema respiratório, nervoso e reprodutivo.Na Amazônia, essa realidade tem rosto concreto. É a criança que respira fumaça nas periferias de Manaus. É o trabalhador que passa o dia exposto ao escapamento dos caminhões. É a comunidade ribeirinha afetada pela abertura de estradas e pelo aumento da circulação de cargas. É o povo indígena pressionado por corredores logísticos que aceleram desmatamento, grilagem, mineração ilegal e invasão territorial. A própria pesquisa da Rede GTA relaciona grandes rodovias amazônicas, como BR-319, BR-163 e Transamazônica, ao aumento da pressão sobre territórios e à necessidade de consulta prévia, livre e informada, conforme a Convenção 169 da OIT.

É nesse contexto que as metas climáticas de empresas como Volvo e Mercedes-Benz/Daimler precisam ser confrontadas. Não basta anunciar neutralidade de carbono para 2039 enquanto, no presente, a Amazônia continua respirando diesel. A contradição é evidente: as montadoras exibem compromissos globais de descarbonização, mas ainda não assumem metas específicas para a Amazônia, não apresentam um plano concreto para eletrificar os corredores logísticos da região e, segundo a cobertura sobre o relatório da Rede GTA, ainda não comercializam caminhões elétricos na região amazônica.

O impacto dos caminhões a diesel na Amazônia é, portanto, ambiental, climático, sanitário, social e civilizatório. Não se trata apenas de trocar motores. Trata-se de decidir se a floresta continuará sendo tratada como corredor de passagem para mercadorias ou se será reconhecida como território de vida.

A tecnologia já existe. O que falta é decisão política, compromisso territorial e responsabilidade corporativa. Se há caminhões elétricos disponíveis em outros mercados, por que a Amazônia continua condenada a receber diesel, fumaça e promessas distantes? Se as empresas dizem estar comprometidas com o clima, por que não assumem metas imediatas de venda de caminhões elétricos na região Norte? Por que não investem em infraestrutura de recarga na BR-319, BR-174, BR-163 e nos acessos aos portos e polos industriais? Por que não tornam públicas suas emissões reais, seus planos de transição e sua atuação política junto a governos e associações empresariais?

A falsa solução dos biocombustíveis também precisa ser denunciada. Trocar o combustível sem mudar a lógica da combustão, da expansão rodoviária e da economia extrativista não resolve o problema. Pode apenas pintar de verde um modelo que continua adoecendo pessoas e destruindo florestas. Uma transição verdadeira não pode repetir a velha fórmula: sacrificar territórios para sustentar lucros.

O impacto dos caminhões a diesel na Amazônia é, portanto, ambiental, climático, sanitário, social e civilizatório. Não se trata apenas de trocar motores. Trata-se de decidir se a floresta continuará sendo tratada como corredor de passagem para mercadorias ou se será reconhecida como território de vida. A eletrificação do transporte pesado precisa estar vinculada à justiça climática, ao controle social, à consulta dos povos afetados, à saúde pública e à proteção dos bens comuns.

A Amazônia não pode esperar até 2039. Cada ano de atraso significa mais fumaça nos pulmões, mais carbono na atmosfera, mais pressão sobre os territórios e mais lucro para quem promete o futuro enquanto destrói o presente. A luta contra os caminhões a diesel é parte da luta contra o capitalismo fóssil. É uma luta por ar limpo, por saúde, por território e pelo direito dos povos amazônicos de não serem transformados em zona de sacrifício da logística global.

*Adilson Vieira é sociólogo, Mestre em Ciência, Tecnologia e Educação e Dr. em Sociologia. Pesquisador e militante socioambiental amazônico. Atua na Rede de Trabalho Amazônico - GTA, no FBOMS, no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Amazônico e na Associação Alternativa Terrazul.

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