Por Ana Carolina Alfinito e Pedro Ribeiro Nogueira*
Em meio à corrida global pelos chamados minerais críticos e estratégicos (MCE), as reservas brasileiras dos elementos de terras raras têm estado no centro de debates sobre soberania, dependência, interesse nacional e justiça. A escalada recente das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China fez com que o monopólio chinês de lavra e extração de terras raras, consolidado há décadas, passasse a ser considerado um risco existencial pelo governo norte-americano, que depende da produção chinesa para o avanço da sua indústria bélica e hegemonia tecnológica. As vastas reservas não-exploradas do Brasil se tornaram, aos olhos do governo estadunidense, uma alternativa para suprir sua demanda, colocando o Brasil numa posição ambígua de parceiro comercial estratégico e alvo de chantagens econômicas e intervenções políticas.
Mas o que são os elementos de terras raras, porque e por quem eles são classificados como minerais críticos, e como sua posição na geopolítica contemporânea está contribuindo para moldar tanto a política mineral quanto uma série de políticas e direitos territoriais no Brasil? Quais territórios e terras são colocados em risco por tais transformações, o que tais dinâmicas revelam sobre a singularidade - a a verdadeira raridade - dos territórios ameaçados?
No presente texto, exploramos essas questões em quatro partes. Na primeira, discutimos brevemente o que são as terras raras e qual a sua importância para diferentes setores industriais e tecnológicos. A segunda parte retrata algumas dinâmicas geopolíticas recentes que colocaram as terras raras no centro de disputas globais lideradas pelo governo norte-americano,.Terceiro, olhamos para como a corrida pelas terras raras está contribuindo para contornos da nova Política Brasileira de Minerais Críticos e para a redução dos níveis de proteção de territórios tradicionais e áreas de preservação socioambiental contra o extrativismo mineral. Concluímos com algumas considerações sobre a importância e singularidade das terras indígenas, territórios tradicionais, áreas de assentamentos, e outras terras, estas sim realmente raras, que hoje são vistas pelo capital minerário e por reguladores como fronteiras de expansão mineral.
De que terras se fala quando se fala de terras raras?
Os elementos de terras raras (rare earth elements - REE, na sigla em inglês), também conhecidos como metais de terras raras, são um conjunto de 17 elementos quase indistinguíveis em seu estado natural. Apesar da qualificação “raras” que marca seu nome, trata-se de elementos relativamente abundantes na superfície terrestre. A dificuldade na sua exploração reside na sua distribuição dispersa e na escassez de depósitos de minérios economicamente exploráveis. Ademais, a purificação e processamento desses elementos são difíceis, custosos e associados a impactos ambientais significativos.
As propriedades dos elementos de terras raras aumentam a sua resistência ao calor e bem como seu poder magnético, o que as torna essenciais na fabricação de ímãs permanentes super-potentes e leves, utilizados por exemplo, em motores de veículos elétricos e nas turbinas eólicas. A fabricação de um veículo elétrico pode utilizar até dois quilos de neodímio e praseodímio, enquanto as turbinas eólicas utilizam até 600 quilos de elementos de terras raras.
No campo militar e de defesa estratégica, os REEs são utilizados em sistemas de orientação e precisão, como orientação de mísseis, assim como em lentes de câmeras de alta qualidade. Ou seja, tanto a indústria energética quanto a indústria bélica hoje dependem, para a fabricação de suas tecnologias de ponta, das chamadas terras raras.
O Brasil tem a segunda maior reserva mundial das “terras raras”, atrás apenas da China e é alardeado pelos conservadores como uma saída estratégica para romper a dependência do suposto “mundo livre” da China, oferecendo minerais essenciais para a transição energética e complexo militar tecnológico das potências globais. Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos manifestou formalmente ao governo brasileiro o interesse em ter acesso às reservas de terras raras do país.
O desejo dos Estados Unidos pelos minerais estratégicos do Brasil joga luz sobre a disputa de países pela liderança científico-tecnológica planetária. No contexto atual, o interesse estadunidense mira um conjunto de minerais críticos que são o nó górdio da atual revolução tecnológica e diversificação energética, como terras raras, lítio, nióbio, cobalto e níquel.
Quem controla esses minerais, controla o ritmo da inovação em setores estratégicos, pensando na produção de semicondutores, baterias, painéis fotovoltaicos e ligas metálicas de altíssima resistência. A disputa, então, se dá num contexto em que duas grandes potências, EUA e China, competem, numa ordem internacional muito instável, pela projeção de suas esferas de influência sobre regiões com reservas de minerais críticos.
A ordinária geopolítica das terras raras
“Daremos golpe em quem quisermos. Lidem com isso”, disse, em 2020, o agora trilionário Elon Musk, sobre o golpe que aconteceu na Bolívia na época. O país sul-americano, de maioria indígena, guarda em seus desertos de sal reservas importantes de lítio, um mineral essencial para fazer baterias de veículos – mas que não compõe os 17 minerais das terras raras. Musk, que desde então adquiriu o Twitter, expandiu a internet por satélite em toda a Amazônia com a Starlink e fez parte do governo de extrema direita e supremacista branco de Donald Trump, fez grande parte de sua fortuna com a empresa Tesla, de carros elétricos. Para Musk, as terras interessam tanto quanto o lítio.
“O Brasil é a solução para os EUA terem acesso à minerais críticos e terras raras”, disse, em março deste ano, o candidato de oposição de extrema direita, Flávio Bolsonaro, em um congresso conservador nos Estados Unidos e também reiterou a posição em reunião com Trump, em junho deste ano, quando disse ter “apresentado” as reservas de terras raras do Brasil ao mandatário estadunidense.
A China detém quase o monopólio da extração de terras raras, bem como do seu refinamento, que é o processo de separação dessas terras de outros minerais. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a China seja responsável por cerca de 61% da produção de terras raras e 92% de seu processamento. Tanto a extração quanto o processamento dessas terras raras são caros e poluentes. A China construiu um quase monopólio em toda a cadeia de valor, desde a mineração e refino até a fabricação de produtos acabados, como ímãs.
O Brasil tem a segunda maior reserva mundial das “terras raras”, atrás apenas da China e é alardeado pelos conservadores como uma saída estratégica para romper a dependência do suposto “mundo livre” da China, oferecendo minerais essenciais para a transição energética e complexo militar tecnológico das potências globais. Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos manifestou formalmente ao governo brasileiro o interesse em ter acesso às reservas de terras raras do país.
O desejo dos Estados Unidos pelos minerais estratégicos do Brasil joga luz sobre a disputa de países pela liderança científico-tecnológica planetária. No contexto atual, o interesse estadunidense mira um conjunto de minerais críticos que são o nó górdio da atual revolução tecnológica e diversificação energética, como terras raras, lítio, nióbio, cobalto e níquel.
Quem controla esses minerais, controla o ritmo da inovação em setores estratégicos, pensando na produção de semicondutores, baterias, painéis fotovoltaicos e ligas metálicas de altíssima resistência. A disputa, então, se dá num contexto em que duas grandes potências, EUA e China, competem, numa ordem internacional muito instável, pela projeção de suas esferas de influência sobre regiões com reservas de minerais críticos.
Minerais críticos, política minerária e políticas territoriais
O termo minerais críticos e estratégicos foi criado em meio às guerras mundiais do século 20 para fazer referência aos minerais essenciais para as economias de guerra cujo suprimento corria risco de interrupção. Ele se consolidou no período da guerra fria, quando as chamadas superpotências passaram a estocar esses materiais para tentar garantir sua supremacia militar e o domínio geopolítico. Quando o modelo de transição energética global baseada em energias ditas renováveis - que são hiperintensas em minérios - se tornou hegemônica na segunda década do século 21, o conceito passou ser usado também para fazer referência àqueles minerais que seriam essenciais para a fabricação de painéis fotovoltaicos, baterias, torres eólicas e outras tecnologias que fazem parte do pacote da chamada energia limpa. Para descarbonizar as economias, ou assim reza o consenso da descarbonização (Bringel e Svampa, 2024), será necessário expandir e aprofundar as fronteiras minerárias ao redor do mundo, garantir o suprimento dos minerais que são críticos para a transição.
A ideia mesma de uma transição energética induz a uma série de decepções. O historiador ambiental Jean-Baptiste Fressoz, por exemplo, refuta a ideia de uma “transição energética” linear - a passagem da lenha para o carvão, do carvão para o petróleo e, por fim, para as energias renováveis. Ele argumenta que a história energética da humanidade é marcada pelo acúmulo e pela simbiose — em que simplesmente acumulamos novas fontes de energia sobre as antigas As fontes de energia não se substituem mutuamente; elas se alimentam umas das outras. Por exemplo, a mineração de carvão exigia enormes quantidades de madeira para sustentar as minas, e o petróleo depende fortemente do carvão para a produção de aço. Fressoz argumenta que a “transição energética” é uma falácia perigosa promovida pelas empresas de energia. Quando as economias buscam o crescimento desenfreado, novas fontes de energias são incorporadas na matriz de forma interdependente e simbiótica com aquelas consideradas antigas.
É isso que estamos vendo hoje com as recentes promessas de descarbonização. Na realidade, o que está acontecendo parece muito mais uma acumulação de fontes e diversificação energética do que uma verdadeira transição. Não vamos ver uma queda significativa na extração e queima de combustíveis fósseis, mas sim uma adição das fontes ditas limpas - mas minério-dependentes - ao carbono. Além disso, conforme exposto no item acima, a busca pelos minerais críticos, longe de se tratar apenas de viabilizar uma disrupção energética, visa acima de tudo garantir a supremacia tecnológica e bélica de alguns estados dentro de uma ordem global em franca transformação. Os minerais críticos são um conceito de guerra, como sempre foram.
Seja como for, a corrida pelos minerais críticos e estratégicos (MCEs) tem sido vista como uma oportunidade por muitos. Os setores energético e de mineração defendem que a intensificação e expansão da lavra e beneficiamento de MCEs são uma questão de segurança nacional, segurança energética e segurança alimentar. Mas segurança para quem? Como os marcos regulatórios que surgiram sob a égide dessa corrida têm redistribuído segurança, riscos, benefícios e danos entre diferentes setores, grupos e territórios?
Um conjunto de novas regulamentações sinaliza uma tendência de diminuição da proteção social, ambiental e territorial contra a mineração: Políticas que priorizam a concessão de licenças ambientais para projetos de mineração em áreas vulneráveis e ricas em biodiversidade e sociodiversidade; abertura de áreas públicas protegidas, como terras indígenas, assentamentos rurais e terras quilombolas, para a exploração, prospecção e extração de minerais; definição ampla dos “minerais críticos e estratégicos” que podem se beneficiar de políticas de incentivo.
Em 2021, o governo federal instituiu a Política de Apoio ao Licenciamento Ambiental de Projetos de Investimento para a Produção de Minerais Estratégicos (Política Pró-Minerais Estratégicos), que visava acelerar e facilitar o licenciamento ambiental de projetos de mineração habilitados como estratégicos. Tal política definiu um rol de minerais definidos como estratégicos pelo governo brasileiro - um rol amplo que inclui ouro, ferro, bauxita, cobre, terras raras, dentre muitos outros. Também instituiu o Comitê Interministerial de Análise de Projetos de Minerais Estratégicos (CTAPME), responsável por habilitar os projetos estratégicos que teriam prioridade no licenciamento ambiental. Coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, tal comitê não conta com nenhuma representação do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério da Cultura ou do Ministério dos Povos Indígenas.
Dos vinte e sete projetos submetidos à análise pelo CTAPME desde 2021, dezenove foram autorizados. Destes, quinze estão localizados na Amazônia Legal, em territórios biodiversos ocupados por comunidades tradicionais, povos indígenas e famílias camponesas. Cinco projetos “estratégicos” estão situados ao redor de terras indígenas; cinco se sobrepõem a unidades de conservação, e pelo menos sete se sobrepõem diretamente a assentamentos de reforma agrária. Analisados em conjunto, esses projetos representam uma ameaça à política de reforma agrária, à proteção do meio ambiente e aos direitos territoriais das comunidades tradicionais. Não é de se estranhar que nove dos projetos aprovados estejam sendo contestados na Justiça, por meio de ações que visam anular as licenças ambientais concedidas. A partir de 2023, a Política Pró-Minerais Estratégicos parece ter deixado de ser operativa. Mas ela abriu o caminho para o avanço da pressão e interferência extrativista em terras protegidas e territórios tradicionais.
Mais recentemente, os MCE entraram com força na pauta do Congresso Nacional. São inúmeros os Projetos de Lei (PLs) que tratam do tema. O PL 2780/2024, apresentado pelo deputado Zé Silva (Solidariedade/MG) foi o que mais avançou em sua tramitação. O texto, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, responde à pressão de países ricos por matérias primas para tecnologias energéticas e bélicas. De acordo com um Policy Brief recentemente publicado pelo Observatório da Mineração, apesar do discurso de sustentabilidade, o PL abre caminho para incentivos fiscais, flexibilizações regulatórias, facilitação de parcerias com empresas estrangeiras e priorização de projetos já habilitados na Política Pró-Minerais Estratégicos. De acordo com a nota técnica, “[a] proposta aprofunda o modelo extrativista voltado à exportação de commodities, enfraquece a capacidade regulatória do Estado e perpetua a lógica de sacrifício de territórios e populações — sobretudo na Amazônia e em Terras Indígenas — em nome de uma “transição” energética global que não se compromete com justiça socioambiental.”
A pressão norte-americana pelo acesso aos elementos de terras raras brasileiras tem contribuído diretamente para a formulação da PNMCE. Em reuniões diplomáticas e comunicados de imprensa, o governo norte-americano tem enfatizado a importância do estabelecimento de um marco regulatório que facilite investimentos e acesso americano às terras raras brasileiras. Uma delegação do Senado dos EUA esteve em Brasília discutindo o projeto de lei apenas dois dias antes de ele ser aprovado pela Câmara dos Deputados e, em 26 de maio, autoridades americanas e brasileiras avançaram nas negociações sobre um memorando de entendimento sobre terras raras. O presidente Lula, que enfrenta uma complexa campanha de reeleição contra Flávio Bolsonaro, acolheu o interesse dos EUA como moeda de troca nas negociações comerciais bilaterais, revelando que as pressões geopolíticas que moldam esse projeto de lei vão além das fronteiras do Brasil.
Foi também no contexto da corrida pelas terras raras e demais MCEs que a abertura das terras indígenas para a mineração passou a ter um lugar central não só na agenda do setor minerário, mas também na pauta do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). A Constituição Federal condiciona a possibilidade de mineração dentro de terras indígenas à existência de legislação específica regulamentando a atividade. Até hoje, em grande parte por conta da resistência do movimento indígena, tal regulamentação não foi instituída. Ou seja, a mineração dentro de terras indígenas segue proibida pela Constituição. Mas com a crescente pressão pela exploração e lavra de minérios, as terras indígenas passaram a ser áreas ainda mais cobiçadas pelo setor mineral. Nos discursos oficiais de entidades como o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) e mesmo do STF, as terras indígenas passaram a ser retratadas como áreas vulneráveis, empobrecidas e precárias. A mineração industrial, simultaneamente, passou a ser apresentada como a solução para esses problemas, como a atividade que trará segurança territorial, desenvolvimento e bem-estar para as comunidades. Tudo isso sem nenhuma evidência.
Em fevereiro de 2025, o Ministro do STF Gilmar Mendes propôs um anteprojeto de lei liberando a mineração em terras indígenas. A tentativa não colou, mas em outubro de 2025 foi instituído no Senado um Grupo de Trabalho sobre Regulamentação da Mineração em Terras Indígenas (GTMTI), presidido pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), com a tarefa de criar um projeto de lei para liberar a lavra minerária dentro de TIs. O GTMTI foi intensamente criticado pelos movimentos indígenas, que não foram consultados sobre a medida. De acordo com nota publicada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em outubro de 2025,
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem reiterado que a regulamentação da mineração em terras indígenas não representa uma alternativa econômica sustentável, nem para os povos indígenas, nem para o Brasil. Essa atividade, historicamente marcada pela ilegalidade e pela exploração predatória, gera degradação ambiental irreversível, contamina rios com mercúrio, destrói modos de vida tradicionais e fortalece redes criminosas organizadas
(...).A instalação deste GT exige atenção redobrada e acompanhamento permanente, pois inaugura um novo momento de discussão que pode abrir precedentes para a legalização da mineração em terras indígenas, uma medida que ameaça direitos constitucionais e enfraquece conquistas históricas de proteção ambiental.
Os trabalhos do GTMTI não foram, até o presente momento, concluídos. Mas a pauta da mineração em terras indígenas voltou a avançar no STF em fevereiro de 2026 quando, ao julgar uma ação tratando do garimpo nas terras do povo Cinta Larga, o Ministro Flávio Dino publicou uma decisão que visou estabelecer condições e critérios para a autorização de exploração e lavra mineral em qualquer área indígena. A manobra, realizada novamente sem participação dos povos afetados e, a bem dizer, sem qualquer participação social mínima, preocupou os movimentos indígenas, organizações indigenistas e socioambientais. Em sua decisão, Flávio Dino defende que a mineração corporativa é o caminho para o desenvolvimento e a dignidade dos povos indígenas que são hoje abandonados pelo Estado. Ou seja, em vez de responsabilizar o Estado por suas omissões e crimes, o Ministro opta por colocar os encargos da reparação sobre as costas da indústria extrativista. E por acaso o extrativismo já regenerou territórios e reparou injustiças? Ao que tudo indica, os mais altos poderes da república se tornaram agentes da grande mineração, compraram seus discursos e ideologia (‘a mineração vai salvar os povos indígenas!’) e passaram a ser, eles mesmos, poderosos lobistas do setor minerário.
A corrida global por minerais críticos e terras raras tem pressionado fortemente os territórios indígenas no Brasil. Cerca de 44% das terras indígenas do país (278 territórios) e mais de 45 povos isolados estão cercados por requerimentos de exploração mineral. E outros territórios também estão ameaçados. Cerca de 57% dos assentamentos de reforma agrária no Brasil sofrem sobreposição com projetos ou requerimentos minerários. Segundo estudo publicado em 2026 pela FASE em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, isso ameaça retirar 13,9 milhões de hectares (19,1% de toda a área de reforma agrária) das mãos da agricultura familiar para a expansão da fronteira mineral e energética.
E afinal, quais terras são raras?
As terras indígenas situadas no Brasil estão dentre os últimos territórios do mundo onde a mineração não pode entrar. Estão dentre as últimas áreas do globo protegidas da lavra minerária. Isso, evidentemente, não garante que os territórios serão plenamente protegidos e fortalecidos. Mas permite que ao menos o horizonte da destruição causada pelo extrativismo minerário seja dificultado. Abre espaço para que se possa pensar em outras formas de vida, em territórios livres de mineração e das suas chagas. Essas são as verdadeiras terras e territórios raros. Não os elementos químicos usados para gerar ímãs e mísseis, mas os territórios de autonomia e autodeterminação dos povos, sejam eles terras indígenas, terras quilombolas, assentamentos de reforma agrária, ou territórios de outros povos e comunidades tradicionais.
*Ana Carolina Alfinito é Pós-doutoranda no INEAF/UFPA e assessora jurídica na Amazon Watch. Pedro Ribeiro Nogueira é jornalista e membro da Escola de Ativismo.
Referências
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB. Mineração em Terras Indígenas: O que está em Jogo para o Brasil e o Planeta? Brasília, DF: 2026. Disponível em: https://apiboficial.org/2025/06/11/mineracao-tis/
_________________________________________. Desmascarando o Lobby Mineral em Terras Indígenas. Brasília, DF: 2026. Disponível em: https://apiboficial.org/files/2026/04/relatorio-desmascarando-lobby-mineral-em-terras-ind%C3%ADgenas-no-brasil.pdf
Bringel, B. and Svampa, M. Del «Consenso de los Commodities» al «Consenso de la Descarbonización», Nueva Sociedad, 306, 2024.
Fressoz, J-B. More and More and More: An All-Consuming History of Energy. New York: Penguin, 2025.
Observatório da Mineração.