Por Mikaelle Farias*
A transição energética é sempre tratada como algo complicado demais. Complexa demais. Cara demais. Demorada demais. Mas quase nunca fazem a pergunta mais importante, quanto custa continuar como estamos?
Há um dado que, para mim, deveria estar no centro de qualquer debate sobre política de transportes no Brasil, mas raramente aparece, segundo os relatórios mais recentes da Organização Mundial da Saúde, 50 mil pessoas morrem por ano no país devido à poluição do ar. Em São Paulo, pesquisas do médico Paulo Saldiva mostram que a população de São Paulo perde, em média, um ano e meio de vida por respirar um ar equivalente a fumar quatro cigarros por dia. Ainda assim, seguimos tratando carros, ônibus e caminhões movidos a combustíveis fósseis como se fossem apenas uma questão de mobilidade e não uma questão também de saúde pública.
O setor de transportes é hoje o principal emissor do setor energético brasileiro. E isso importa porque mais de 80% da população brasileira vive em cidades. Ou seja, a poluição do ar não tem como desaparecer fácil. E quando olhamos com cuidado para o que a ciência documenta sobre os efeitos da poluição do transporte na saúde de crianças e adolescentes o que encontramos é uma crise de saúde pública que afeta desproporcionalmente quem ainda está se desenvolvendo.
Mas essa exposição não acontece de forma igual. No Brasil, a poluição também segue o mapa da desigualdade. São as crianças e jovens das comunidades próximas a corredores industriais, dos bairros sem árvores e com trânsito intenso que convivem diariamente com um ar mais tóxico.
Quando olhamos com cuidado para o que a ciência documenta sobre os efeitos da poluição do transporte na saúde de crianças e adolescentes, o que encontramos é uma crise de saúde pública que afeta desproporcionalmente quem ainda está se desenvolvendo.
Segundo a UNICEF, cerca de 40 milhões de crianças brasileiras estão expostas simultaneamente a mais de um risco climático e ambiental.Dados do Painel Vigiar, plataforma lançada pelo governo federal em 2024 para monitorar a poluição e seus impactos, mostram que municípios com intensa atividade industrial e de transporte pesado apresentam taxas de mortalidade associada à poluição muito acima da média nacional. São Caetano do Sul, no ABC Paulista, registrou uma taxa de mortalidade atribuída à poluição do ar de 320 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2023 frente a uma média nacional de 83 por 100 mil.
Isso significa que as decisões sobre transporte não são apenas decisões técnicas. Elas definem quem pode respirar com segurança e quem cresce adoecendo silenciosamente. Discutir mobilidade elétrica, transporte público de qualidade e redução do uso de combustíveis fósseis não é falar apenas sobre carbono. É falar sobre infância, sobre direito à cidade e sobre o tipo de futuro que estamos escolhendo normalizar, porque é urgente que o debate sobre mobilidade precisa deixar de ser guiado apenas pela lógica da infraestrutura e passar a considerar os impactos humanos das escolhas energéticas que são feitas na hora de se construir políticas.
Porque em um país como o Brasil, que é marcado por desigualdades territoriais profundas, a ausência de políticas amplas de transporte de baixo carbono e acessíveis aprofunda ainda mais as vulnerabilidades já existentes e limita o direito de milhões de pessoas a uma vida digna. Por isso acredito que a “transição energética” não deveria ser vista apenas como uma meta climática, dentro de acordos nacionais e internacionais, mas como uma oportunidade viável de redefinir prioridades e reconstruir a relação entre cidades, saúde e bem-estar coletivo.
*Mikaelle Farias é do Agreste Paraibano, ativista climática, assessora de mobilização e incidência da Presidência Jovem da COP30 é pesquisadora nas áreas de transição energética e justiça climática. Atua na promoção da participação da juventude e na construção de soluções para uma transição energética justa e inclusiva na sua região.