Por Juliana Aguilera*
No Google Trends, as principais perguntas sobre transição energética no último ano são: "o que é transição energética", "transição energética no Brasil" e "transição energética justa". O termo está em alta e não deve ser uma tendência pontual, pois a crise climática já está no nosso dia a dia. Saber comunicar de forma acessível é fortalecer o significado de "justa".
E o comunicador digital tem um papel fundamental nesse trabalho socioeducativo. Uma pesquisa realizada pelas organizações Aurora Lab e More in Common mostrou que 85% dos brasileiros já notaram os impactos das mudanças climáticas e 65% dizem se informar sobre clima via redes sociais.A transição energética justa é um termo guarda-chuva que vem acoplado a diversos outros temas, por isso, o primeiro passo é desmistificar todo esse ambiente.
Por exemplo: o que é o limite de aquecimento de 1,5°C do Acordo de Paris? O que significa a dependência de combustíveis fósseis ou a descarbonização de frotas? E esse papo de terras raras e El Niño? E o mais importante: o que tudo isso tem a ver com a vida das pessoas? O gancho muitas vezes está no cotidiano: a conta de luz mais cara (que tem tudo a ver com a dependência dos combustíveis fósseis), as ondas de calor que colaboram para a insegurança hídrica e trazem desconforto e piora na saúde de quem trabalha exposto ao sol.
Então, um “palavrão” como “eventos climáticos extremos” se torna os incêndios florestais no Pantanal e as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, e as secas nos rios Negro, Solimões e Madeira, em 2023.As pessoas sentem as mudanças climáticas na pele todos os dias e muitas vezes não sabem nomeá-la.
O mesmo acontece com a transição energética justa. Quando as hidrelétricas estão funcionando a todo vapor, a conta de luz vem mais barata. Sobra dinheiro para outras necessidades da família. Quando há secas, as termelétricas são acionadas e tudo fica mais caro.Comunicar a transição energética justa também exige que falemos as palavras corretas. A começar com: não existe energia limpa. Mesmo energias renováveis como solar e eólica causam danos socioambientais. Prefira usar “energia renovável” e/ou “energia de baixa emissão”.
O gancho muitas vezes está no cotidiano: a conta de luz mais cara (que tem tudo a ver com a dependência dos combustíveis fósseis), as ondas de calor que colaboram para a insegurança hídrica e trazem desconforto e piora na saúde de quem trabalha exposto ao sol.
Quando leio “energia limpa” em algum boletim, penso como isso deve ser ofensivo para moradores de comunidades tradicionais no Nordeste que dia sim e dia também lutam contra os impactos deixados por empreendimentos de energia eólica e solar em seus territórios.
Falar sobre transporte público também tem tudo a ver com transição energética justa e o dia a dia das pessoas. Este é um dos principais setores da economia com saídas “fáceis” para a descarbonização. O WRI lembra que, no Brasil, metade dos passageiros do transporte coletivo depende exclusivamente do serviço para se deslocar. O transporte é o maior emissor de gases de efeito estufa dentro do setor de energia e a principal fonte de material particulado nas cidades — que causa mais mortes do que acidentes de trânsito. Ou seja, transportes também está ligado à saúde das pessoas, outro tema de fácil engajamento.
A “transição energética justa” pode ser entendida por diversas lentes, por isso, é importante trazer referências diversas sobre o tema. Ensine seu público o caminho para "pescar" os dados de forma confiável. Por exemplo, enquanto o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) trabalha numa perspectiva de energia elétrica a preço acessível, o Observatório da Branquitude faz um recorte de raça, abordando aspectos do racismo ambiental. Ambos complementam essa busca por uma transição que seja justa para todos.
A escuta ativa dos territórios - ou ouvi-los por meio de especialistas - é necessário para trilhar um futuro energético justo. É corrigir injustiças sociais e combater a pobreza em suas mais diversas formas, envolvendo diversos entes da esfera social.E o comunicador é um dos elos desse importante ecossistema. Use e abuse dos formatos possíveis nas redes, mas comunique e ensine sempre.
*Jornalista especializada em clima e justiça socioambiental. Gosta de contar histórias sobre pessoas e meio ambiente nos mais diversos formatos – de memes a reportagens. Você a encontra nas redes como @_jurnalista.