Por João Cerqueira*
No final de abril, em Santa Marta, na Colômbia, algo inédito aconteceu. Pela primeira vez na história, 57 países se reuniram numa conferência dedicada exclusivamente a planejar o fim dos combustíveis fósseis. Não como pauta secundária de uma COP, não como item 7 de uma agenda lotada, mas como única razão de existir do encontro. E o que ficou claro é que encontrar formas práticas para abandonar o petróleo, o carvão e o gás deixou de ser horizonte distante para se tornar, mesmo que timidamente, uma necessidade estratégica compartilhada.
O que diferenciou Santa Marta não foi só quem foi negociar nos espaços restritos. Foi quem finalmente entrou pela porta. Povos indígenas, sindicatos, juventudes, comunidades afrodescendentes e ativistas participaram por meio de um mecanismo de escuta real e, apesar dos desafios típicos de processos excessivamente participativos, suas demandas foram incorporadas à declaração final.
Apesar disso, os resultados governamentais foram cautelosos, como sempre. Uma segunda conferência foi anunciada para 2027. Um painel científico vai ancorar o processo em evidências. Os resultados chegarão à presidência da COP30. São passos modestos diante da urgência, e seria desonesto apresentá-los como vitória plena. Mas há algo estruturalmente relevante no que Santa Marta representa.
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, tem defendido que o multilateralismo climático precisa operar em dois níveis: uma primeira velocidade ancorada no consenso entre países, que garante legitimidade e direção coletiva; e uma segunda voltada para a implementação, onde coalizões abertas, movimentos e comunidades que constroem soluções sem esperar que todos concordem. Santa Marta foi exatamente isso: não substituiu a ONU, mas criou um espaço onde a segunda velocidade pode ganhar tração. Nomear os combustíveis fósseis como causa raiz da crise climática num espaço intergovernamental, e abrir esse espaço para os movimentos, não é pouca coisa. É o piso. Cabe a nós erguer o teto.
O Brasil, enquanto isso, mostrava exatamente por que esse processo importa. Enquanto a conferência ainda acontecia, o Ministério de Minas e Energia lançava a consulta pública do Plano Nacional de Transição Energética. O timing seria simbólico, se o conteúdo não fosse tão revelador: mesmo no cenário mais ambicioso do próprio MME, o Brasil ainda queimaria as mesmas proporções de carvão e gás em 2055. Trinta anos de transição para chegar ao mesmo lugar.
Não é incompetência. É captura. O lobby pelos fósseis no Brasil age com precisão cirúrgica: derruba vetos presidenciais para favorecer termelétricas, renova subsídios ao carvão até 2040 e molda os planos de transição para garantir que nada mude de verdade. O resultado aparece na conta de luz, que graças aos subsídios fósseis deve subir quase 8% este ano, bem acima da inflação. Paga quem não tem a mesma capacidade de fazer lobby em Brasília.
Santa Marta não resolveu (e nem conseguiria resolver) isso. Mas deixou um recado útil: a transição que os governos atrasam já está sendo construída por quem mais sofre com o atraso. O que falta é que essa pressão chegue onde as decisões são tomadas.
No Brasil, em 2026, esse lugar são as urnas. A pergunta que cada candidato precisa responder é simples: o que você vai fazer com os bilhões que o país desperdiça todo ano mantendo vivo um setor que nos custa caro demais para continuar?
Afinal, isso é, sim, da nossa conta.
*Engenheiro ambiental (UTFPR), com especializações em Gestão Pública (PUC-RS) e Políticas Públicas (IDP), e mestrando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (UnB). Atuou em incidência política e campanhas em organizações como Engajamundo, Anistia Internacional e ISPN, cofundou o Instituto Clima de Política (2020), foi Secretário Executivo do GT Clima da Frente Parlamentar Ambientalista (2022-2024) e Chefe da Assessoria Parlamentar do Ibama (2024-2025). Atualmente é Country Manager da 350.org no Brasil.