Por GTA - Grupo de Trabalho Amazônico*
Com relatos emocionados, denúncias sobre poluição e debates sobre justiça climática, movimentos sociais lançaram oficialmente, em Cuiabá (MT), a campanha “Nossa Energia, é Outra. Nosso Caminho, Também”, iniciativa que integra a mobilização “Amazônia Livre do Diesel”.
O lançamento aconteceu durante encontro promovido pela Rede GTA Mato Grosso, reunindo lideranças indígenas, trabalhadores rurais, juventudes, mulheres, organizações sociais e representantes de comunidades diretamente afetadas pelo avanço dos corredores logísticos e pelo modelo de transporte movido a diesel.
A campanha denuncia o chamado “duplo padrão” das grandes empresas globais: enquanto países do Norte Global avançam na eletrificação e redução de emissões, territórios amazônicos continuam convivendo com fumaça tóxica, poluição, adoecimento e precarização das condições de vida.
Ao longo da programação, participantes compartilharam experiências sobre os impactos do diesel e dos agrotóxicos em seus territórios, além de construírem estratégias de mobilização, frases de impacto e narrativas populares para fortalecer a campanha nos estados amazônicos.
Durante o encontro, também foram debatidas alternativas para reduzir os impactos causados pelos combustíveis fósseis, entre elas a eletrificação dos caminhões pesados. Os participantes destacaram que a substituição gradual da frota movida a diesel por veículos elétricos pode contribuir para a redução da emissão de poluentes, melhorar a qualidade do ar e diminuir os impactos à saúde das populações que vivem próximas aos grandes corredores logísticos. Para os movimentos sociais, discutir transição energética é pensar em soluções que coloquem a vida, os territórios e a justiça climática no centro das decisões.
A coordenadora nacional da Rede GTA, Sila Mesquita, destacou que discutir transição energética significa colocar os povos amazônicos no centro das decisões.“Quando falamos de transição energética, precisamos perguntar: transição para quem? Não podemos aceitar que os territórios amazônicos continuem pagando o preço do desenvolvimento enquanto outros lugares recebem os benefícios”, afirmou.
O debate também foi fortalecido pelos dados apresentados na pesquisa “Do Berço ao Túmulo”, divulgada pela campanha e que evidencia como os impactos dos combustíveis fósseis atingem populações desde os processos de extração, transporte e refino até os efeitos na saúde humana e no meio ambiente. O estudo aponta que a poluição gerada pelo diesel está diretamente relacionada ao aumento de doenças respiratórias, contaminação ambiental e agravamento da crise climática, especialmente em territórios vulnerabilizados da Amazônia.
O coordenador de Articulação e Parcerias da Rede GTA, Adilson Vieira, reforçou que a campanha nasce da escuta das comunidades e da necessidade de responsabilizar grandes corporações pelos impactos causados na Amazônia.“Essa campanha surge das vozes dos territórios. Estamos falando de pessoas que convivem diariamente com fumaça, calor extremo, poluição e adoecimento. Não existe transição energética justa enquanto a Amazônia continuar sendo tratada apenas como corredor logístico e espaço de exploração”, destacou.
Entre os depoimentos que marcaram o encontro está o da liderança Ana Paula, presidente de uma associação no município de Novo Mundo, no norte de Mato Grosso. Para ela, o evento ampliou a compreensão sobre os impactos do diesel e dos agrotóxicos na vida das comunidades.“
A gente discutiu sobre o diesel, sobre o agrotóxico, algo que a gente escuta falar, mas muitas vezes não tem noção da gravidade. Foi importante entender que isso não acontece só aqui no norte do Mato Grosso, mas é uma questão global que precisa ser debatida”, relatou. Ana Paula também destacou a importância da participação das mulheres nos espaços de decisão e construção política.“Ver tantas mulheres participando, buscando ser incluídas e representadas, me fortalece. Quero levar esses estudos para a minha comunidade e buscar soluções junto com outras pessoas e outras culturas. Quem sabe do problema é quem está vivendo ele todos os dias”, afirmou.
Durante o encontro, lideranças relataram problemas relacionados ao aumento de doenças respiratórias, ao calor intenso, à poeira, à contaminação ambiental e aos impactos sociais causados pelo fluxo constante de caminhões em regiões amazônicas.
Uma das frases construídas coletivamente durante as oficinas resume o sentimento dos participantes:“Eles eletrificam lá e poluem aqui”. Além da produção de vídeos, depoimentos e materiais de comunicação, o encontro também definiu estratégias de pressão pública, mobilização digital e incidência política voltadas às empresas do setor de transporte e logística.
A campanha “Nossa Energia é Outra, Nosso Caminho Também” busca fortalecer uma mobilização popular em defesa de uma Amazônia livre da dependência do diesel e comprometida com soluções energéticas sustentáveis, populares e alinhadas à justiça climática.
*A Rede GTA (Rede de Trabalho Amazônico) é uma articulação da sociedade civil criada em 1992 que reúne mais de 600 entidades na Amazônia Legal, incluindo associações de povos indígenas, pescadores, seringueiros e quilombolas.