Uma visão trans sobre transição justa: “Precisamos transicionar o CIStema!”

Por Maria Flor* e Gab Caeu*

Muito se fala sobre transição energética justa e sobre como incluir a diversidade de corpos-territórios nesse caminho. No entanto, o que sabemos sobre transição de fato? Não como um modo de produção que se transforma em outro, mas sim como transição no olhar, no jeito de perceber o mundo, na maneira como se transiciona também uma parte de nós e das nossas relações.

Que nós, pessoas trans e travestis, não estamos ocupando espaços de saber-poder dentro das mais diversas categorias de trabalho na sociedade brasileira, nós já sabemos. Segundo pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) de 2020, 90% da população trans e travesti tem a prostituição como principal fonte de renda, e apenas 6% está inserida no mercado formal de trabalho. 

Mas, quando pensamos em modos de existir e, mais ainda, em formas de resistir através do ato de transicionar, temos tecnologias ancestrais para isso. Mais do que nunca, é preciso escutar o que nós, pessoas trans e travestis, pensamos sobre o conceito de transicionar. 

A ideia de transição sempre existiu, mas foi construída, por muito tempo, a partir de um lugar estigmatizado e crucificado socialmente. Ainda hoje, o Brasil é, pelo 16º ano consecutivo, o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, a maioria travestis e mulheres trans negras e pardas, entre 18 e 35 anos. 

Até 2019, a própria Organização Mundial da Saúde classificava a transexualidade como transtorno mental. Transicionar, para quem decide o que é doença e o que é normalidade, sempre foi tratado como desvio a ser corrigido, nunca como legítima forma de existir.

Isso mostra que tudo aquilo que foge do esperado, do que está posto estruturalmente na nossa sociedade, é tratado como algo a ser combatido, violentado, enterrado, mesmo sendo uma ideia falsa, construída por um sistema que se beneficia do que está posto: um sistema que explora a vida, a natureza, e a energia necessária para manter o capitalismo. 

Se o CIStema nos ensinou que alguns corpos são desviantes e, portanto, descartáveis, o modelo energético e de transporte dominante opera com uma lógica semelhante sobre determinados territórios, considerados disponíveis, exploráveis e sacrificáveis em nome de um projeto de desenvolvimento.
Essa lógica de sacrifício e de morte não se limita aos corpos trans e travestis, ela atinge todos os que vivem na margem. Onde quer que o capitalismo peça passagem, encontra aval para explorar, e isso vale também para as rotas por onde a matéria-prima precisa ser transportada hoje na Amazônia. No Rio Tocantins, por exemplo, o chamado Pedral do Lourenço, formação rochosa entre Marabá e o Lago de Tucuruí, teve o derrocamento aprovado pelo Ibama ainda em outubro de 2022, processo que envolve explodir grandes blocos de rocha que compõem o leito do rio. 

O objetivo do derrocamento é permitir que o rio seja navegável o ano inteiro para embarcações carregadas de grãos, minérios e outros insumos, com capacidade projetada de até 20 milhões de toneladas por ano, escoando pelo Porto de Vila do Conde, em Barcarena, de onde partem os navios rumo aos mercados consumidores da Europa e dos Estados Unidos. Práticas exploratórias como essa se repetem em outros rios amazônicos, como o Tapajós e o Xingu.

No trajeto dessa matéria-prima ficam para trás territórios inteiros, histórias, comunidades e perspectivas familiares que se constroem a partir daquilo que entendemos como ancestral. É escutando essas vozes, que vivem esses rios no corpo e na memória, que começamos a pensar por onde deveria de fato começar qualquer transição.

Isso porque, quando essa transição, como é o caso da energética, é pensada dentro desse sistema colonial, exploratório e capitalista, a lógica territorial permanece a mesma. Segundo dados da Articulação Estadual de Fundo e Fecho de Pasto, ao menos 11 municípios da Bahia, têm comunidades tradicionais em conflito com empreendimentos do setor, muitos deles avançando sobre terras onde essas comunidades vivem há gerações sem títulos formais.

Em outras cidades, como Caetés (PE), comunidades inteiras foram severamente afetadas pelos altos ruídos das eólicas em seus territórios, com sintomas como insônia, depressão e ansiedade, atravessando a saúde mental coletiva sem qualquer possibilidade de reparação financeira ou psicológica. Energia "limpa", mas com métodos que repetem a expropriação.

Por isso, quando dizemos aqui que é importante ressignificar o conceito de transição, é justamente porque, para nós, transicionar, ainda que seja uma outra forma de existir, parte de um lugar de memória, de respeito a quem veio antes, de ancestralidade e de cuidado com a natureza que nos permite ser transformados.

É, portanto, em respeito à tudo que sabemos e vivemos quando falamos sobre transição que não iremos desistir, uma vez que sentimos no próprio corpo a experiência de romper com o que insiste em não nos enxergar, de reconstruir formas de estar no mundo apesar da ausência de infraestrutura, apoio e reconhecimento ao nosso redor. Transicionar uma matriz energética exige coragem para desmontar estruturas de poder concentradas, imaginar outros caminhos possíveis e resistir às tentativas de manter tudo como está. E ninguém entende mais disso do que nós.


*Maria Flor é artiativista, travesti, racializada com ancestralidade indígena. Trabalha como artesã – tecendo, pintando, reciclando e reutilizando – diversos materiais em produção manual. É também poetisa e performer, constrói sua arte a partir de suas vivências de mundo

*Gab Caeu é transmasculino, ativista socioambiental, psicólogo de formação, comunicador e mestrando em Direitos Humanos e Territórios.

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